Resenha do Capítulo 1 de Rorschach: O método: passado, presente e futuro

Terezinha A. de C. Amaro e Carla Luciano C. Hisatugo (2019)

 

Hermann Rorschach (1884-1922) foi um psiquiatra suíço que ficou famoso por ter desenvolvido o teste de Rorschach, uma técnica de avaliação psicológica que se utiliza de manchas de tinta para avaliar a personalidade e os processos mentais de um indivíduo.

No capítulo 1, Amaro e Hisatugo (2019) nos apresentam um panorama sobre a história de Hermann Rorschach, nascido em Zurique (1884), onde cresceu em contato com a arte, definido como agradável, afetuoso, romântico, apesar de possuir um comportamento reservado. No ano de seu nascimento avanços foram percebidos no mundo, como a fundação da Estátua da Liberdade nos Estados Unidos, bem como energia elétrica na Áustria-Hungria.

Hermann era o filho mais velho de uma família de artistas e cresceu rodeado de arte e criatividade, tendo como irmãos Ana e Paul. O pai, Ulrich foi pintor e professor, e a mãe Philippine faleceu de diabetes quando ele tinha 12 anos, segundo consta da história, o casal era feliz e amoroso.

Ocorre que após a morte de Philippine, Ulrich casou com irmã de sua esposa, Regina, momento que a vida de Hermann passou por situações difíceis. Desse novo casamento nasce sua irmã mais nova Regineli. Em 1903 o pai faleceu, de forma que ele passou a ministrar latim nas escolas a fim de auxiliar economicamente a família, quando tinha 18 anos.

Importante destacar que na época havia um jogo com borrões de tinta chamado Klecksographie, o qual Rorschach tinha interesse e o jogava com freqüência. O jogo consistia em relacionar esses borrões (que podiam ser adquiridos ou elaborados pelos próprios jogadores) com versos, poemas, histórias. Ademais, nas escolas os professores incentivavam a confecção desses borrões com o desenvolvimento de suas descrições. Por conta de seu entusiasmo pelo jogo ou por outros motivos conforme histórias sobre sua vida, Hermann recebeu o apelido de Klex na escola.

Inicialmente, Rorschach possuía dúvidas sobre seguir os estudos na área da ciência natural ou artes, de forma que aconselhado por Ernst Haeckel (naturalista alemão) optou pela primeira. Desde cedo, ele mostrou interesse pela psicologia, e após terminar seus estudos em medicina, dedicou-se a estudar a psicanálise de Freud e as teorias de Carl Jung.

Admirador da cultura russa e de escritores e filósofos, dentre eles, Leon Tolstoi, Dostoievski, tendo inclusive traduzido um dos romances de Leonid Andreiev, cuja temática se relacionava com as “contradições da alma humana e fermentação dos instintos” (ELLENBERGER, 1954, apud AMARO; HISATUGO, 2019, p. 21). Rorschach também era um estudioso das religiões, seitas e de suas histórias.

Concluindo medicina em Zurique, passou a trabalhar no hospital psiquiátrico de Münsterlinger, Suiça (1909-1913). Nesse período também iniciou um relacionamento com uma colega russa, Olga Shtempelin, tendo inclusive vivido na Rússia a fim de conhecer a família, período em que pode praticar o idioma e conhecer psiquiatras e psicólogos da localidade, dentre eles o estudioso da fenomenologia e psicopatologia Eugène Minkowski e teve como mestre Konrad Gehring, quando passou a colaborar com o estudo exploratório de aplicação de manchas de tinta (que eram formadas por borrões das folhas dobradas). Quando retornou à Suíça, abandonou esses estudos e dirigiu-se à psicanálise.

Em Zurique, havia um grupo psicanalítico composto por Eugen Bleuler, Oskar Pfister, Alphons Maeder, Ludwig Binswanger, Carl Jung, de modo que com o objetivo de nele ingressar, Rorschach iniciou uma pesquisa, a qual foi posteriormente publicada em uma das primeiras revistas psicanalíticas. Sua tese de doutorado “Sobre alucinações reflexas e outras manifestações análogas” foi aprovada em 1912, tendo como orientador o próprio Bleuler, momento em que Rorschach já utilizava associação de palavras de Jung como instrumento junto aos seus pacientes.

Symon Hens, em 1917, por sua vez apresentou sua tese (também orientado por Bleuler) sobre utilizar as manchas de tinta para estudar e explorar a fantasia, tendo como objetivo avaliar pacientes psicóticos e não pacientes, afirmando que isso seria promissor no futuro, para se diagnosticar doenças mentais.

Durante seu trabalho em um hospital psiquiátrico, Rorschach estimulava artisticamente e organizava peças de teatro com os pacientes, além de manter um macaco que interagia com eles, enquanto observava esses movimentos, verificando essa relação com o animal. Lá, começou a desenvolver o teste que leva seu nome. Ele notou que pacientes com esquizofrenia e outros distúrbios mentais muitas vezes interpretavam manchas de tinta de forma diferente.

À frente de seu tempo, fornecia aos pacientes materiais para desenhos, além de massa para modelar, estudando essas produções. Ele próprio era multifacetado e habilidoso, aprendeu a tocar violino e também marcenaria.

Sobre as idéias que podem ter originado o Método de Rorschach, seu criador era impressionado sobre o conteúdo dos sonhos, encontrou nas análises freudianas “a interpretação de que a percepção das imagens bizarrras dos sonhos estaria condensada ou combinada entre várias experiências” (AMARO; HISATUGO, 2019, p. 33).

Quanto aos antecedentes históricos da utilização das manchas de tinta, antes de Rorschach, é possível traçar sua origem até os tempos de Botticelli e Da Vinci (se utilizava dos borrões para selecionar pessoas para trabalhar com ele, tendo em vista que considerava que as manchas estimulavam a imaginação criativa).

Compartilhando o mesmo pensamento, em 1857, o poeta Justinus Kerner publica Klecksographie, livro de poemas baseados em 50 manchas de tinta, o que deu origem ao passatempo homônimo e, posteriormente, diversos outros estudiosos trabalharam nessa linha colaborando para sintetização desses estudos. Em que pese não haja informações de que Rorschach tenha tido contato ou conhecimento mais profundo com tais trabalhos, o que se sabe é que ele possuía conhecimento sobre Da Vinci e Kerner, mas que não há influência em seu trabalho.

O trabalho de Symon Hens de 1917 foi muito relevante para Rorschach, o que o levou a retomar seus estudos e a abandonar as pesquisas sobre seitas religiosas, de maneira que ele acabou por criar 40 manchas de tinta (algumas reais outras parcialmente modificadas).

Rorschach publicou seu livro Psychodiagnostik (nome sugerido por Morgenthaler) em 1921, um ano antes de sua morte precoce. Obra aprovada por Bleuler, julgada positivamente por Binswanger – com algumas criticas com relação ao embasamento teórico – e criticado por Arthur Kronfeld. Naquele momento já demonstrava preocupação durante o desenvolvimento do método e diante dos resultados.

Ademais, importante destacar que George Roemer, aluno de Rorschach, chefiava o aconselhamento de carreira para estudantes, verificando sua conformidade nas respostas do teste e também testou ex-soldados. Ocorre que em uma palestra, Roemer apresentou modificações para serem aplicadas no contexto educacional. Após críticas de Willian Stern (revisor de “A interpretação dos sonhos” de Freud) de que nenhum teste poderia realizar diagnóstico da personalidade e que a abordagem era artificial e unilateral. Rorschach ficou incomodado com as modificações e com o fato de que em momento algum havia afirmado que o teste deveria ser utilizado de forma isolada. Posteriormente, Stern compreendeu melhor a obra, porém, para o autor o estrago já havia sido feito.

Existia o interesse de que o teste fosse divulgado nos Estados Unidos, considerando que se interessavam pela Psicologia e testes vocacionais e também que Rorschach teria pensado em utilizá-lo no contexto antropológico (indivíduos da mesma família, ocupação a fim de comparar com outras culturas e nações), o que iniciou entre a população de Berna e Appenzell com a finalidade de discriminar as diferenças culturais e outras variáveis, sendo denominada “Experiência de Base” (AMARO; HISATUGO, 2019, p. 40). Da referida análise, concluiu-se que a população de Berna era mais introvertida, lenta, fechada e criativa e a de Appenzel era afetiva, extratensiva, e adaptável. Verificou-se ainda a freqüência de pacientes catatônicos e paranóicos na primeira localidade e hebefrenia na segunda.

Desde então, o teste de Rorschach foi ganhando popularidade, seja na clínica ou na pesquisa, tornando-se uma técnica amplamente utilizada para avaliar a personalidade e os processos mentais de um indivíduo.

No entanto, Rorschach não viveu para ver o sucesso de seu trabalho, já que morreu aos 37 anos de uma peritonite. Apesar de ter morrido jovem, Hermann Rorschach “abriu uma janela da compreensão dos aspectos da personalidade” (AMARO; HISATUGO, 2019, p. 46) e deixou um legado importante na área da psicologia e sua técnica continua a ser utilizada até hoje em diversas áreas.

 

Referências

 

AMARO, Terezinha A. de C.; HISATUGO, Carla Luciano Codani. “Rorschach o Método: passado, presente e futuro”. 1 ed. São Paulo: Hogrefe. p. 20 a 46. 2019.

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