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A expressão “sua majestade o bebê” é uma referência de Freud para situar a criança, seu lugar e seu valor na estrutura familiar. Ele explica esse termo baseado nas relações entre pais e filhos segundo ideais – o amor dos pais, tão comovedor e no fundo tão infantil, nada mais é senão o narcisismo dos pais renascido, o qual transformado em amor objetal, inequivocadamente revela sua natureza anterior.

“A criança terá mais divertimento que seus pais; ela não ficará sujeita às necessidades que eles reconheceram como supremas na vida. A doença, a morte, a renúncia ao prazer, restrições à sua vontade própria não a atingirão; as leis da natureza e da sociedade serão renunciadas em seu favor; ela será mais uma vez realmente o centro e o âmago da criação – ‘Sua majestade o bebê’, como outrora nós mesmos nos imaginávamos”.

‘Sua majestade o bebê’ é a revivescência e a reprodução do narcisismo dos pais que há muito tempo abandonaram. Agora, com seu bebê, possuem a oportunidade de renovar seus planos aos quais foram forçados a renunciar.

O investimento afetivo dos cuidadores fará também com que seja possível a criança adentrar num segundo momento de desenvolvimento subjetivo, a saber, o narcisismo primário. Em “Sobre o narcisismo: uma introdução” Freud percebe que características narcísicas, como a onipotência de pensamentos e a superestima do poder, têm relação com uma condição anterior, em que o bebê toma seu próprio ego como objeto de amor. Em outras palavras, há uma catexia libidinal do ego, que só posteriormente será ligada a objetos externos. Isso se dá através da atitude emocional dos pais, voltada, nesse momento, a uma supervalorização do bebê, ao qual dotam de todas as perfeições: ele é, nesse momento, ‘Sua Majestade o Bebê’ (Freud, 1914/2006, p. 83). Esse investimento dos pais nada mais é que uma revivência e reprodução de seu próprio narcisismo, há muito tempo abandonado, desde que foram inscritos na cultura. No narcisismo, o ego da criança começa a ser desenvolvido, e há um primeiro momento de organização pulsional. As pulsões parciais, antes voltadas às zonas erógenas, estão voltadas agora a uma unidade psíquica de si e de representação do corpo. A forma como se constitui essa imagem unitária, será trabalhada a seguir a partir do estádio do espelho, de Lacan.

Em outras palavras, a s pessoas estão cada vez mais se percebendo como seres de extrema importância, interessantes e isso pode ser perigoso. Muito provavelmente nossa configuração familiar diminuída, juntamente com certa falência das figuras de autoridade, bem como o avanço tecnológico têm contribuído para esse narcisismo exacerbado que vemos hoje em nossa sociedade.

           Não pretendo aqui ficar explicando sobre o conceito psicanalítico “narcisismo”, muito provavelmente o farei em outra oportunidade, precisaria reservar um artigo inteiro para tal. Pretendo discutir questões mais práticas que sim, estão ligadas a esse funcionamento psíquico, no entanto não focarei no conceito propriamente dito.

            A maneira como cuidamos dos bebês, como os criamos e consequentemente como fomos cuidados quando bebês, se constitui em algo de extrema importância quando buscamos investigar o psiquismo. Freud, em 1914, escreveu algo que simboliza muito bem a maneira como tratamos o bebê no ceio familiar: “Sua Majestade o Bebê”. Sim, o bebê se torna o senhorzinho da casa, geralmente as visitas vem até a família apenas para vê-lo, os adultos ficam todos em volta dele, ele tem poder para organizar a “agenda” familiar, que horas as pessoas dormem, comem, levantam e etc. Ou seja, no interior familiar o ser mais importante é o bebê.


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        Além desse grande poder que o bebê exerce sobre os demais membros da casa, é importante chamar atenção para o fato dele ser alvo de grandes projeções dos pais. Esses, inconscientemente, atribuem ao filho o poder de realizar no futuro desejos que eles não puderam materializar no passado. Dessa forma, o bebê se torna um ser de extremo poder e cheio de projeções idealizadas dos pais.

           Essas duas questões, o poder conferido ao bebê e as idealizações parentais se constituem um dos grandes problemas dos seres humanos de um modo geral. Isso se torna prejudicial, pois o ser adulto ainda tem resquícios desse período, ele ainda se comporta nos diferentes ambientes de sua vida como se ele fosse aquele bebê – a majestade – o “objeto” mais importante da família e que mobilizava todos os demais para realizar suas vontades.

      Se constituí como um trabalho extremamente árduo reconhecer que no mundo não somos seres tão importantes como nos fizeram acreditar. Nos tempos atuais, isso se torna ainda mais complicado, quando temos redes sociais que mexem justamente com esse aspecto, quando ganhamos um like nosso narcisismo é alimentado, nos dá a sensação de importância, fato que não é bem assim, do outro lado a pessoa só bateu com o dedo duas vezes na tela do celular e foi ver outra foto. Temos tantos problemas com isso, e as redes sociais os pioram tanto, que achamos pequenas coisas do nosso dia ou de nossa vida de extrema importância a ponto de as “impormos” ao outro

        Se reconhecer como mais um não é nada depreciativo, pelo contrário, se constitui como peça fundamental para o amadurecimento, além de ser extremamente libertador. Não há nada melhor que deixar de fazer coisas em prol de um “outro” e fazer realmente para você.

 

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